12 de dezembro de 2024

Um Natal

O Natal chegou antes sequer de dobrarmos o limiar de Novembro. As ruas belamente iluminadas. As lojas belamente decoradas. Jesus nasce por toda a parte, nos sorrisos das crianças, na sopa dos pobres, nas famílias idílicas a trinchar peru nos anúncios. Tudo belamente retorcido. É um dia 25 que se alastra para trás, a conquistar o calendário com as multicores da paz, verde vermelha dourada. Cores belas. São algumas das cores do cavalo de Tróia, como se sabe. Galoparia até Setembro, se o deixássemos correr livre. Até Agosto? Porque não? O dinheiro faz por se multiplicar enquanto os cartões de crédito não denunciarem o abuso. Nisto obrigamo-nos à paz, de amar provisoriamente a paz. E a paz, sendo sobre-humana, deve ser respeitada como a coisa impossível que é. Mergulha-se no jogo de cabeça, sem pensar, porque a vida não é literatura. Boas festas, diz-se a partir de algum impreciso dia. Boa tarde, bom dia, apenas, já não caem bem. Pecam por incivilidade. E não queremos que nos julguem, pois não? Eu amo a paz, eu amo o Natal! Boas festas, boas festas! Sei que contra estes sarcasmos se erguem quantidades obscenas de crucifixos. Ou olhares pagãos de desilusão. Mas não tem importância, porque isto trata-se de uma módica crónica e eu, por fora dela, conheço a dádiva do silêncio. Mas continuando que o tempo não pára, e o dia 25 está já aí, epicentro deste imóvel cataclismo. Dia de acordar cedo, de vestir algo mais decente, de atentar nos modos. Cumprir derradeiramente a paz que se tem vindo a instituir desde Novembro, e celebrá-la. E como? Com amor, alegria, brinquedos, chocolate, conforme as estruturas mentais que a idade faz adequar, embora com o furtivo excesso a que o corpo já não deverá resistir. Olhar-se-á para os anúncios televisivos a tentar reproduzir, pairar-se-á de leveza em encanto e magia, pôr-se-á música comovente, a mesma de sempre. Mas vai-se a ver melhor e há uma coisa que as publicidades não apanharam bem: o caminho das pedras dos cozinhados sem fim, a guerra na Ucrânia, o gólgota da loiça por lavar, a mortandade em Gaza. Tudo coisas igualmente más. Dirão os mais cínicos: o Natal é uma estúpida forma de expiação do mal. Mas eu não vou tão longe, porque creio na humanidade: o mal é que serve de expiação à insanidade natalícia. Que retorne rapidamente o mal. Que se volva visível. Que Jesus nasça de uma vez. Que se acabe de inaugurar as Notre Dames, que os Zelenskys voltem às respectivas guerras. Por amor de Deus. Mas está tudo bem, entre bom vinho e sobremesas gordíssimas, fazem-se tréguas para salvaguardar a pureza da data, o seu significado mais profundo: porque está um messias a nascer, no âmago de uma noite feliz, não é altura para discussões sobre política ou heranças. Noite de amor. Não! Que se dane o messias, pensa um familiar, quando ao quinto copo de vinho decide que tem um comentário ácido a fazer. Não, não fez. Graças a Deus, conteve-se. Merda, já está a encher outra vez o copo. Merda. Isto que acabe rápido.

9 de dezembro de 2024