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8 de outubro de 2024

 Excerto de «Turista Clandestino», in Tautologias.

E no centro de cada quarto, no centro do universo inteiro, permaneci a ensaiar a agrura do silêncio monástico. O isolamento. A dúbia doçura da paz. Habitei cada um, não sei quanto tempo, a pensar muito, não sei em quê, talvez na insuficiência do pensamento, ou no seu excesso. Pensei muito pouco. Que se pensa num convento quando já não se considera rezar? A que inevitável incompletude se está votado quando os séculos se nos atravessam sem ordem e a nossa pequenez já não advém da desmedida de Deus mas de nos vermos sem ele, sem a sua medida, sem o seu totalitário mas finito reino? E ali, perdido, era como se na convicção da minha descrença se reunissem todas as palavras, todo o silêncio, e nessa mútua aniquilação eu apenas me pudesse encontrar absoluto, já sem voz, corpo ou vida. Inexistente.

6 de maio de 2024

Excerto de «Ponto de Equilíbrio» in Tautologias:

O Sr. Lopes não bebe antes das cinco, o que é terrível porque cala a sobriedade com um ininterrupto falatório. Hoje tem tentado mais para o Gabarito, dono do estabelecimento, que, talvez por ter deixado a bebida faz uns meses, lhe poderá parecer mais disponível. Mas é pobre princípio conceber que a renúncia do ébrio o torna logo atentamente sóbrio, particularmente quando deslocou o vício para outro vício, que é o caso, a julgar pelo quanto conversa com os corpos despidos de uma revista — é daqueles tipos que com os lábios desenha o movimento das palavras obscenas que não diz, ficando em espuma seca na fímbria dos lábios.

23 de novembro de 2022

Excerto de «Pássaros do Paraíso II», in Tautologias:

Grande parte do público volta e meia vaiava, assobiava, aclamava desesperadamente para inspiração do seu macho favorito. Dava-lhes nomes, dava-lhes à luz a alma provisória que não detinham no seu corpo passeriforme. Outra parte do público, no qual eu me incluía, tentava alguma expressão de neutralidade, a não querer que a sua preferência pessoal desestabilizasse os intervenientes nem contribuísse para um resultado injusto. Além disso, de certa forma, a má prestação de um ou outro pássaro e o seu eventual, mas pouco convincente, fingimento de si, causava em nós um leve, às vezes apertado, efeito de vergonha alheia que nos remetia ou a um silêncio, ou a um não olhar, ou a um intermitente alienamento da nossa própria presença, como se através de nós os pássaros se pudessem esconder de toda a gente.

15 de janeiro de 2019

Não quero deambular pela amplitude funesta do que digo ou não digo, o que escrevo ou não escrevo, o que sou ou não sou. Tenho na ideia um texto mais para o narrativo — tenho pensadas as personagens, o espaço da ação, o Tema mais ou menos delineado. Vai dar uma trabalheira. Uma coisa angustiante esta de manipular a psicologia de alguém. Dizem-me naturalmente, e sensatamente: mas as personagens não existem, são um produto de uma puríssima invenção, uma matéria que vem de parte nenhuma. Eu devia ser mais sensato.

21 de setembro de 2018

Escrever com base num conceito é uma tentativa constante de resolução. São na verdade resoluções sucessivas e cada qual tenta-se que seja a última. 

20 de setembro de 2018

Alguns ajustes ao Suicídio de José. Não estou a gostar do final. 

14 de setembro de 2018

O Suicídio de José tem algo de tântrico.

8 de setembro de 2018

Trabalho num conto a que se vão juntar outros ainda vagos. Estou incerto de que nome lhe poderei atribuir, e muito mais do desenvolvimento de que possa precisar. Dei-lhe a forma de um diário não datado — curtos lapsos de registo, aleatórios. Trata-se de um homem a quem obrigam confrontar a sua vida, toda ela escrita. O tempo, inexistente, não é impedimento à tarefa, embora o possa ser à sua higiene existencial. Estão dois procuradores do outro lado da secretária que conduzem o processo. Este é, na verdade, de uma instrução simples: o homem deve assinar o termo de responsabilidade depois de lida e discutida a sua vida. Não há prazo para o fazer. Não há certezas do que possa suceder. Há uma porta por onde se poderá sair. Viajar pelo escritório alterará perspectivas. Talvez o homem nunca saia, nunca assine. Pelo menos, durante o tempo da narrativa. Depois dela, a eternidade é só sua.