Filme quieto, em sentido duplo: fotográfico e pensado. Se a dor se revelasse em imagem seria a da escuridão que circunda o pensamento, em que a mínima luminosidade, a débil figura, o grave contorno, significam a réstia de vida e de esperança — a luz minga ou cresce? Não é estranho que o filme busque a estética do sonho, do pesadelo ou da memória, porque é precisamente nesse segundo mundo em que aparece decantada a miséria e, porque a há sempre, a beleza.
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17 de dezembro de 2023
14 de março de 2023
A Pior Pessoa do Mundo (2021) Dir. Joachim Trier
Contribui para a coerência da problemática feminina ao desdobrar a discussão para longe do feminismo enquanto posição política. Porque é preciso mais discurso, naturalmente, não sobre a luta da mulher contra o homem, que é uma binariedade sem compromisso possível, mas sobre a mulher contra si mesma, enquanto membro singular de um colectivo, feito de homens, mulheres e fantasmas.
27 de fevereiro de 2023
Jagten (A Caça) (2012) Dir. Thomas Vinterberg
Neste filme a trivialidade gela qualquer hipótese de transcendência, deixando-nos reféns de cada facto, momento, pronúncia, olhar, que se sucede, na minuciosa, mas orgânica, construção dramática. Decerto a cada cena somos apunhalados pela lisura do que é terreno e mundano, e por isso rochoso e agreste. E é da própria expectativa que nasce a confirmação das jogadas humanas — porque o que não se espera era exactamente o que esperávamos, ainda que nos exija uma outra forma de aceitação, uma certa compreensão, sem ideais, sem heróis ou anti-heróis, sem moralidade, porque cada coisa reside já para lá dessas projectadas ilusões — resta a subtil pedra fervente que tomou o lugar do nosso estômago.
24 de fevereiro de 2023
Crítica a um filme indizível, assistido no Cinema Trindade
Ontem, no Cinema Trindade, assisti, como nunca antes, a duas lentas horas de purga da humanidade. O (também mudo) imperativo poético do cineasta logrou calar todas as vozes, todas as faces, numa lenta, muito lenta, asfixia do outro. Dir-se-ia sadismo não fora pelo seu notório desinteresse — a câmara é neste filme um olho a tal ponto desapegado que só nos mostra o que lhe mostra a sua cegueira — em que as personagens (não vistas) são corpos que existem, suponho, por uma obrigação de género. Mas uma personagem não é um instrumento. Uma personagem é o desconhecido a conhecer-se, alguém que vive, que sobrevive, apesar de tudo, à sua latente morte. Tais existências exigem cuidado e estima. Neste filme, o cineasta oferece-lhes logo um fim, muito distante da misericórdia porque nem dor sentimos na decapitação.
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