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13 de maio de 2025

Ora essa, senhores turistas

 Uma crónica hibridamente literária e comezinha, a respeito de coisas como turismo, gentrificação e alienação urbana. Publicado hoje no Público:

Ora essa, senhores turistas

Porque antes que a coisa trema demais, pré-Marqueses vão levantando compulsivamente gruas para aproveitar tudo. Tudo tudinho. Pérolas a porcos é que não. Que caridades é com a Santa Casa.

26 de abril de 2025

Zeca Afonso e os séculos

Crónica da minha autoria sobre a música de Zeca Afonso, publicada no Público:

A cantiga pode ser uma arma, mas a música é o que acontece quando nada mais resta, depois de dissipado o ruído, o grito, o sentido útil de um tiro. 

8 de novembro de 2024

«Lamento tão pouco livro para tanto tempo» — li assim a dedicatória mais ou menos ilegível de uma coletânea do Eugénio de Andrade oferecida a Herberto Helder, em depósito na Biblioteca Palácio de Galveias. Os manuscritos têm essa qualidade enfabuladora do mistério, como se uns quantos caracteres crípticos contivessem a largura do universo. A incorreção da leitura, porém, não lhes retira beleza.

6 de junho de 2024

A intolerância não principia nem termina com a negação do diverso. A negação é a expressão fatal, mórbida. Ódio, sim, e, a montante, o medo, também sim. Também já se sabe do estatuto, do reacionarismo, do poder: a obtusa sensação de controlo do real, mas também do irreal em permanente recriação, em profundo devir. Não se pense porém que a intolerância pensa pouco, porque ela é exatamente feita do mais extremo dos pensamentos: obsessão. É um vórtice que vai engolindo continuamente a mesma coisa, a mesma ideia e, desse modo, alimenta-se da mais superna das pobrezas. Em redor o espaço, o tempo, os outros, são inconcebíveis. Estão sem que existam, sem que pensem, sem que escolham. A intolerância é chegar ao fim primeiro e de modo exclusivo. E aí, aonde mais ninguém é capaz de chegar, a luz do progresso fulge nas suas costas, porque defronte vê tão-só o negro vácuo de si mesma.

17 de junho de 2023

Sociedade Civil de ontem na RTP2 sob o mote “Ser bom, chega?” (no sentido prático-profissional, não moral). Nesta discussão, avieram a educação infantil com a performance profissional como se uma levasse à outra e como se ambas reflectissem o mesmo objecto. Conclusão obtusamente uníssona dos partícipes: não é preciso ser bom para ser bom; a pressão para se ser bom é má porque desmotiva o impulso ou vontade para se ser bom, a coacção tem de ser portanto “apenas” tácita, porque tem de ser a criança ou o trabalhador a “querer” ser bom; se não quiser ser bom, deve-se-lhe mostrar que tem de ser bom, sem qualquer coacção, naturalmente.

26 de abril de 2023

Fomos ver o filme Oito Montanhas, baseado num livro do escritor italiano Paolo Cognetti. Tentei pensar no que dizer, mas as palavras ficaram lá em cima, no refúgio subterrado do pensamento.

19 de março de 2023

Pinguim

Os convivas indagavam antros interiores com a mesma implacabilidade com que a música das palavras constelava a mais inexprimível alegria. Espaços estendiam-se em busca de outros espaços, ardores estendiam-se em busca da partilha e da solidão. É por isso que certas coisas, livres e transcendentes, ocorrem em cheio na impossibilidade de as situar. Às duas da manhã, cantávamos o Cançoninho todos juntos, em círculo, de braços pousados nos ombros dos sobreviventes da madrugada. Mesmo se virgens daquelas andanças, podíamos ir até lá, devagar, a passo reticente de intruso, alguém levantava o braço para nos abrir espaço e encaixávamos no elo humano a fingir as palavras que não sabíamos. As iminentes gargalhadas não se distinguiam da comoção. Como não sei. Algum segredo impartilhável todos ali partilhavam. Já não íamos ao Pinguim há uns anos. O que reencontrámos ontem ? A irrepetição? É inútil perseguir a memória. Talvez o modus litúrgico venha cedendo ao formalismo. Talvez a poesia venha envelhecendo junto com o resto. O vinho, porém, permanece indecifrável dentro do seu igual. Ao menos o vinho.

30 de março de 2021

Acordei novamente espancado pelas obras da casa do lado. Venho do sono dorido dos martelos e das vozes fundas e inchadas dos homens. Vou tentando novos sonos na paz que encontro entre as pulsões brutais. Vou e venho. Vou e venho. O meu peito bate a contratempo.

12.30h. estou desfeito num cansaço atroz. Pensar é sucederem-se imagens arrastadas — como se faltassem frames à fluidez do real.

A S. chegará em breve para almoçar. Antecipo-a nas palavras: quero-lhe falar no livro do Foucault e no Caminho de Santiago (nas bucólicas tentações que passaram ontem na televisão). Estas são duas pedras que calco com a cabeça — tirá-las-ei do chapéu como quem as tira do sapato.

2 de novembro de 2020

As obras da casa ao lado amainaram. Da sua fúria restam cacos e pó. Sei ser mais uma trégua passageira, mas em cada uma sinto uma paz infinita (— mas dessa infinitude comunga também o reverso, porque estas obras, estando ainda neste ponto depois de mais de meio ano, certamente durarão para sempre.)

1 de novembro de 2020

Hoje é dia de Todos os Santos. Bastante inclusivo.

Lá fora, pela imagem das janelas, fremem as cores outonais no possível das copas.

Dei com uns morcegos pendurados em algumas portas, montras. Há um estranho e melancólico conforto nas coisas desta época. Na sua inocência.

4 de abril de 2019

Os Animais e o Dinheiro, de Gonçalo M. Tavares e Os Espacialistas. O espetáculo aconteceu no Rivoli, um edifício que me suscita a ideia de uma monumentalidade em ponto pequeno. Os mármores, as luzes, a polidez, a amplitude dos espaços ainda de quando havia espaço para o espaço por dentro da cidade. Mas o espetáculo. O espetáculo era de um efeito iminentemente físico, corporal, como se fossemos tragados pelas iterações circulares e hipnóticas da máquina. Uma hora de constância, de não movimento num ininterrupto movimentar. O pensamento dá-se à indolência do corpo e tudo o que somos e tudo que o espetáculo é e tudo o que está a ser, fica simbioticamente unificado mitigado expandido à simplicidade de uma coisa maior. Uma hora. Uma hora. Uma hora. Num súbito, explode música devasta o funcionamento da engrenagem, a máquina para como se acordada para uma nova realidade nova consciência do espaço do tempo. E há luz, cor, muito tempo de luz, cor, música, e o corpo novamente se dá ao ritmo e à circularidade, mas, desta vez, em êxtase da adrenalina do orgasmo imprevisto. Há muito a intelectualizar. Mas o que o espetáculo dá de incomum é uma consciência profunda de estar ali num corpo por baixo da inteligência, só em contacto terreno com o que há de físico em nós. Mas talvez seja isso uma forma de intelectualizar a questão.  

15 de março de 2019

Ali perto, no fim da Rua das Virtudes, do lado direito, há um chafariz. Ao lado da estrutura está plantada a sua mneumobiografria: um parágrafo em português, outro em inglês. Uma chapa vermelhíssima, mesmo ao centro da cinzenta construção, acautela: água não potável, apenas em português. Desconcertado, pensei se supomos serem os estrangeiros espertos demais para beberem daquela água ou se a prevenção da sua intoxicação extravasa as competências camarárias.

1 de março de 2019

O carnaval aproxima-se da sua febre. As lojas distribuem fogo e cores.

As máscaras carnavalescas requerem pouco cálculo interpretativo. São uma ideia acabada, o seu sentido é espontâneo. Na sua imagem morre a psicologia.

8 de novembro de 2018

Anteontem fui a um concerto de música de câmara na ESMAE. Tocava o Primrose Quartet, dizia o programa. E dizia mais coisas. Diziam quem eram e o que tocavam, de onde vinham, como vinham, por onde andaram, porquê, quanto, quando. Tocariam Mozart, Françaix e Brahms. Estes não mereciam descritivos. Supõe-se que se autojustificam com as suas composições. Quanto aos executantes, supõe-se que não sabem ainda justificar o que fazem com o que fazem e que, portanto, careçam de muita biografia anexada. Não sei quem percorreu uma maior distância para chegar àquele tempo e lugar, se Mozart se os Primrose. Mas naquele momento no espaço ou aquele sítio no tempo, onde o Mozart é e os Primrose são, são uma unidade. É que as notas programadas não estão programadas, mesmo as que estão programadas. Aquelas notas vinham de longe, tão longe quanto a metafísica me permitir pensá-las.

4 de outubro de 2018

Biblioteca de Serralves. É outra biblioteca de chão rangente que obriga à anunciação dos passos. Em que escolas de arquitectos de bibliotecas andaram estes arquitectos de bibliotecas? Ou quantas bibliotecas lhes faltou frequentar? Mas nem tudo é mau. Há uma intensidade campestre que entra por uma janela lá no alto. A sala de leitura, cá em baixo, parece existente debaixo da terra. Gordas lâmpadas forçam as coisas regulares à sua irrealidade irreversível, por contágio da fantasia. A metáfora hiperbolizada da iluminação, talvez.

30 de setembro de 2018

Vou a três quartos do Jerusalém do Gonçalo M. Tavares. O primeiro livro que deste autor leio. Tem sido de uma prosa comedida, controlada, cinzentamente poético, nunca se distanciando da própria origem do pensamento. A sua preocupação primeira é a consolidação arquitectónica do mundo interior da narrativa e das personagens. A sucessão dos factos, (quase) arbitrariamente colocados em não linearidade temporal, vai readquirindo a força própria que há depois de cada destruição: a da reconstrução. Preciso de uma leitura completa para entender a total essência da sua motriz criativa. É um livro que vai exibindo, quietamente, o fulgor fantasma de um edifício robusto, na distância, em construção. Por isso aguardarei pelo final. Desta obra mais nada direi porque eu, pelo contrário, não possuo o talento da culminação. Não saberia resolver a minha opinião. Uma opinião ao nível desses píncaros. Sinto-me um conjunto disperso de finais sobrepostos, cá mais em baixo. 

13 de setembro de 2018

Biblioteca. Ainda Vergílio. Ler é impossível sem poder estancar as torrentes de palavras que se vão sucedendo. E fico assim sentado a olhar para elas por dentro de fora para dentro por fora, à procura do seu sentido máximo, do seu ponto último. Deixo-me cair em tentação de não ler uma frase naquele impossível sem tempo que convém à descoberta de todas todas as possibilidades. Infelizmente a leitura é o acto excelente de perpétuo avanço, de efemeridades, do correrio louco de chegar ao ponto mais final que, por ser o último, ilude-nos com a satisfação de que tudo já possa estar escrito e lido.

Resumindo: obedeço assim a um simples aforismo: verdade e sentido são realidades absolutamente diferentes.

12 de setembro de 2018

Tenho vindo à biblioteca Almeida Garrett para ler, escrever, estar. Trata-se de uma biblioteca de um soalho levíssimo, rangente por debaixo dos passos, quase de anti-biblioteca. Caminhando, obriga, invoca, estimula em mim a autoconsciência de mim. Merda. Creio violentamente que os outros usuários ficam corrompidos pela minha passagem, por dentro do seu espaço interior de estudo. 

Cada passo dói mais alto do que é.

Leio o livro do Vergílio Ferreira. E penso em como ele nunca seria capaz de vencer qualquer prémio internacional de prestígio. Talvez nem faça sentido ser lido fora dos países de língua portuguesa. O Vergílio só é total dentro dela. As línguas exigem traduções destotalizantes. A obra de Vergílio vive da sua inteireza, daquela que existe desde lá e ainda lá no cárcere puro da criação. E ainda bem.

9 de setembro de 2018

Feira do livro no palácio de cristal. Encontrei edições gastas, e destituídas a cinco euros, do Em Nome da Terra do Vergílio Ferreira. O mercado livreiro diz que este exemplar vale menos porque já não lhe está fresca a memória do prelo e porque já foi gasto por outros olhos. Mas alegra-me que, apesar dessa triste lei mercantil, todas estas sequências de palavras ainda coincidam com aquelas escritas por Vergílio e que, por segunda coincidência, seja apenas isso que eu dele deseje. A arqueologia de um livro revelar-nos-ia a sua verdadeira vida, na estrita literatura, sob a fisicalidade da casca editorial.