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24 de fevereiro de 2022

 Não sei pensar, falta-me inteligência, cultura, empatia, respeito, solidariedade. Falta-me pensamento.  

7 de julho de 2021

Desço à página branca. O meu sono é amplo e vazio, não sou nada contra a expressão da noite. Sou o seu puro silêncio em torno das coisas acabadas. Não quero escrever mas preciso de redenção, de me calar definitivo, e sabê-lo, sem que alguma coisa espreite das florestas marginais da minha atenção.

14 de abril de 2021

Ler para limpar, neutralizar, o palato. Desabituar-nos a nós, à nossa intimidade, à nossa relação com o espaço e o tempo, com os ritmos desajeitados a que nos tornámos surdos. Há gralhas, mais que formais ou materiais, que são orgânicas e é preciso ler outros autores para não os deixar deixar morrer na sombra da nossa maior insensibilidade.

10 de novembro de 2020

Sinto que a minha escrita atravessa uma fase de mutação, bastante abrupta e contrastante. Tal pode dever-se às novas influências que me entraram, pode dever-se à maturação/imaturação, etc. Sinto-me por isso disperso, irresoluto, aberto e frágil, inseguro.

Há duas abordagens que se reconduzem a duas dúvidas semelhantes: primeiro, posso deixar-me influenciar por novas e díspares correntes estéticas, o que conduz à dúvida da minha adequação; segundo, posso parar, não ler, ler-me apenas, virar-me para mim e ecoar-me no encalço de um místico progresso, mas essa construção de um mundo fechado, e por isso não relativizado, reconduz à dúvida de quem se pensa sofisticar com o seu próprio eco. É sempre a necessidade de pensar holisticamente na estética, permanecendo na fronteira tensa entre o olhar em volta e o olhar para dentro.

28 de setembro de 2018

Não pretendo borrar-me todo em miopias analíticas nem mostrar-me hiper-consciente do que realizo, mas não há forma mais coerente de lidar com o assunto quando assoma a branca limpidez do papel-tempo e a sua alvura é já um desejo irrenunciável à pretendida maior lucidez do discurso. O rei vai nu, mas não abdica nunca.

20 de setembro de 2018

Acordei com a cabeça metida em névoa. Não é fácil pensar. O sol é forte e claro, mas não torna o dia mais legível. 

7 de setembro de 2018

— De que medida é a responsabilidade do escritor?
E de novo eu:
— Olhe, recuso-me a cultivar a ideia de classe. A responsabilidade da escrita é a da, e por uma, auto-responsabilização, como em qualquer atividade solitária. Um escritor (alguém que escreve) pode tanto marginalizar-se em si como noutro ou naquilo a que se designa consciência coletiva. Escrever a partir de um púlpito é coisa grave: é corromper cada palavra. A escrita é feita para dentro, onde, porventura reside toda a humanidade. Que ela ouça ou não é um efeito colateral da criação.

2 de setembro de 2018

Devo dizer (porque impõe-se aqui uma ética) que estes escritos não são substancialmente distintos de qualquer outro método formalmente distinto (e talvez não seja excessiva a hipótese da sua não diferença formal). Tudo intercala-se. As ferramentas interpolam-se. O sangue transfunde-se. Não pretendo um registo fresco dos dias que me sirva de prótese da memória ou de uma identidade engendrada autobiograficamente em torno de uma convicção que tenho ou que passaria a ter. Não espero encontrar-me ou mostrar-me. Não pretendo desbravar, aclarar, sintetizar. Nada atará o nó de quem sou. Nada será iluminação positivista do recalque, do silêncio ou da negação. Creio que nem a datação que precede estes parágrafos poderão denunciar uma forma ou desejo diarístico que não sinto nem tenho. Essa pretensão em princípio chocaria dolosamente, dolorosamente, com os tabiques da metáfora, da ignorância ou da mentira, cuja abundância prevejo no que sou no que serei. Biografia é um estado de espírito, é um olhar que entra de certo ângulo pelo vidro partido de uma catedral de espelhos e que pelo caminho se perde ou nos reencontra os olhos. O cinismo poderá informar-nos de que a biografia é inevitável — o mesmo cinismo poderá garantir fatalmente o oposto. E aos olhos da verdade, isso pouco importa.

Nada disto é sobre mim. Ninguém transcende a literatura.