30 de março de 2021

Acordei novamente espancado pelas obras da casa do lado. Venho do sono dorido dos martelos e das vozes fundas e inchadas dos homens. Vou tentando novos sonos na paz que encontro entre as pulsões brutais. Vou e venho. Vou e venho. O meu peito bate a contratempo.

12.30h. estou desfeito num cansaço atroz. Pensar é sucederem-se imagens arrastadas — como se faltassem frames à fluidez do real.

A S. chegará em breve para almoçar. Antecipo-a nas palavras: quero-lhe falar no livro do Foucault e no Caminho de Santiago (nas bucólicas tentações que passaram ontem na televisão). Estas são duas pedras que calco com a cabeça — tirá-las-ei do chapéu como quem as tira do sapato.

10 de novembro de 2020

Sinto que a minha escrita atravessa uma fase de mutação, bastante abrupta e contrastante. Tal pode dever-se às novas influências que me entraram, pode dever-se à maturação/imaturação, etc. Sinto-me por isso disperso, irresoluto, aberto e frágil, inseguro.

Há duas abordagens que se reconduzem a duas dúvidas semelhantes: primeiro, posso deixar-me influenciar por novas e díspares correntes estéticas, o que conduz à dúvida da minha adequação; segundo, posso parar, não ler, ler-me apenas, virar-me para mim e ecoar-me no encalço de um místico progresso, mas essa construção de um mundo fechado, e por isso não relativizado, reconduz à dúvida de quem se pensa sofisticar com o seu próprio eco. É sempre a necessidade de pensar holisticamente na estética, permanecendo na fronteira tensa entre o olhar em volta e o olhar para dentro.

2 de novembro de 2020

As obras da casa ao lado amainaram. Da sua fúria restam cacos e pó. Sei ser mais uma trégua passageira, mas em cada uma sinto uma paz infinita (— mas dessa infinitude comunga também o reverso, porque estas obras, estando ainda neste ponto depois de mais de meio ano, certamente durarão para sempre.)

1 de novembro de 2020

Hoje é dia de Todos os Santos. Bastante inclusivo.

Lá fora, pela imagem das janelas, fremem as cores outonais no possível das copas.

Dei com uns morcegos pendurados em algumas portas, montras. Há um estranho e melancólico conforto nas coisas desta época. Na sua inocência.

25 de março de 2020

 


10 de março de 2020


 

4 de abril de 2019

Os Animais e o Dinheiro, de Gonçalo M. Tavares e Os Espacialistas. O espetáculo aconteceu no Rivoli, um edifício que me suscita a ideia de uma monumentalidade em ponto pequeno. Os mármores, as luzes, a polidez, a amplitude dos espaços ainda de quando havia espaço para o espaço por dentro da cidade. Mas o espetáculo. O espetáculo era de um efeito iminentemente físico, corporal, como se fossemos tragados pelas iterações circulares e hipnóticas da máquina. Uma hora de constância, de não movimento num ininterrupto movimentar. O pensamento dá-se à indolência do corpo e tudo o que somos e tudo que o espetáculo é e tudo o que está a ser, fica simbioticamente unificado mitigado expandido à simplicidade de uma coisa maior. Uma hora. Uma hora. Uma hora. Num súbito, explode música devasta o funcionamento da engrenagem, a máquina para como se acordada para uma nova realidade nova consciência do espaço do tempo. E há luz, cor, muito tempo de luz, cor, música, e o corpo novamente se dá ao ritmo e à circularidade, mas, desta vez, em êxtase da adrenalina do orgasmo imprevisto. Há muito a intelectualizar. Mas o que o espetáculo dá de incomum é uma consciência profunda de estar ali num corpo por baixo da inteligência, só em contacto terreno com o que há de físico em nós. Mas talvez seja isso uma forma de intelectualizar a questão.  

15 de março de 2019

Ali perto, no fim da Rua das Virtudes, do lado direito, há um chafariz. Ao lado da estrutura está plantada a sua mneumobiografria: um parágrafo em português, outro em inglês. Uma chapa vermelhíssima, mesmo ao centro da cinzenta construção, acautela: água não potável, apenas em português. Desconcertado, pensei se supomos serem os estrangeiros espertos demais para beberem daquela água ou se a prevenção da sua intoxicação extravasa as competências camarárias.

1 de março de 2019

O carnaval aproxima-se da sua febre. As lojas distribuem fogo e cores.

As máscaras carnavalescas requerem pouco cálculo interpretativo. São uma ideia acabada, o seu sentido é espontâneo. Na sua imagem morre a psicologia.

15 de janeiro de 2019

Não quero deambular pela amplitude funesta do que digo ou não digo, o que escrevo ou não escrevo, o que sou ou não sou. Tenho na ideia um texto mais para o narrativo — tenho pensadas as personagens, o espaço da ação, o Tema mais ou menos delineado. Vai dar uma trabalheira. Uma coisa angustiante esta de manipular a psicologia de alguém. Dizem-me naturalmente, e sensatamente: mas as personagens não existem, são um produto de uma puríssima invenção, uma matéria que vem de parte nenhuma. Eu devia ser mais sensato.

8 de novembro de 2018

Anteontem fui a um concerto de música de câmara na ESMAE. Tocava o Primrose Quartet, dizia o programa. E dizia mais coisas. Diziam quem eram e o que tocavam, de onde vinham, como vinham, por onde andaram, porquê, quanto, quando. Tocariam Mozart, Françaix e Brahms. Estes não mereciam descritivos. Supõe-se que se autojustificam com as suas composições. Quanto aos executantes, supõe-se que não sabem ainda justificar o que fazem com o que fazem e que, portanto, careçam de muita biografia anexada. Não sei quem percorreu uma maior distância para chegar àquele tempo e lugar, se Mozart se os Primrose. Mas naquele momento no espaço ou aquele sítio no tempo, onde o Mozart é e os Primrose são, são uma unidade. É que as notas programadas não estão programadas, mesmo as que estão programadas. Aquelas notas vinham de longe, tão longe quanto a metafísica me permitir pensá-las.

4 de outubro de 2018

Biblioteca de Serralves. É outra biblioteca de chão rangente que obriga à anunciação dos passos. Em que escolas de arquitectos de bibliotecas andaram estes arquitectos de bibliotecas? Ou quantas bibliotecas lhes faltou frequentar? Mas nem tudo é mau. Há uma intensidade campestre que entra por uma janela lá no alto. A sala de leitura, cá em baixo, parece existente debaixo da terra. Gordas lâmpadas forçam as coisas regulares à sua irrealidade irreversível, por contágio da fantasia. A metáfora hiperbolizada da iluminação, talvez.

30 de setembro de 2018

Vou a três quartos do Jerusalém do Gonçalo M. Tavares. O primeiro livro que deste autor leio. Tem sido de uma prosa comedida, controlada, cinzentamente poético, nunca se distanciando da própria origem do pensamento. A sua preocupação primeira é a consolidação arquitectónica do mundo interior da narrativa e das personagens. A sucessão dos factos, (quase) arbitrariamente colocados em não linearidade temporal, vai readquirindo a força própria que há depois de cada destruição: a da reconstrução. Preciso de uma leitura completa para entender a total essência da sua motriz criativa. É um livro que vai exibindo, quietamente, o fulgor fantasma de um edifício robusto, na distância, em construção. Por isso aguardarei pelo final. Desta obra mais nada direi porque eu, pelo contrário, não possuo o talento da culminação. Não saberia resolver a minha opinião. Uma opinião ao nível desses píncaros. Sinto-me um conjunto disperso de finais sobrepostos, cá mais em baixo. 

28 de setembro de 2018

Não pretendo borrar-me todo em miopias analíticas nem mostrar-me hiper-consciente do que realizo, mas não há forma mais coerente de lidar com o assunto quando assoma a branca limpidez do papel-tempo e a sua alvura é já um desejo irrenunciável à pretendida maior lucidez do discurso. O rei vai nu, mas não abdica nunca.

21 de setembro de 2018

Escrever com base num conceito é uma tentativa constante de resolução. São na verdade resoluções sucessivas e cada qual tenta-se que seja a última. 

20 de setembro de 2018

Alguns ajustes ao Suicídio de José. Não estou a gostar do final. 

Acordei com a cabeça metida em névoa. Não é fácil pensar. O sol é forte e claro, mas não torna o dia mais legível. 

14 de setembro de 2018

O Suicídio de José tem algo de tântrico.

13 de setembro de 2018

Biblioteca. Ainda Vergílio. Ler é impossível sem poder estancar as torrentes de palavras que se vão sucedendo. E fico assim sentado a olhar para elas por dentro de fora para dentro por fora, à procura do seu sentido máximo, do seu ponto último. Deixo-me cair em tentação de não ler uma frase naquele impossível sem tempo que convém à descoberta de todas todas as possibilidades. Infelizmente a leitura é o acto excelente de perpétuo avanço, de efemeridades, do correrio louco de chegar ao ponto mais final que, por ser o último, ilude-nos com a satisfação de que tudo já possa estar escrito e lido.

Resumindo: obedeço assim a um simples aforismo: verdade e sentido são realidades absolutamente diferentes.

12 de setembro de 2018

Tenho vindo à biblioteca Almeida Garrett para ler, escrever, estar. Trata-se de uma biblioteca de um soalho levíssimo, rangente por debaixo dos passos, quase de anti-biblioteca. Caminhando, obriga, invoca, estimula em mim a autoconsciência de mim. Merda. Creio violentamente que os outros usuários ficam corrompidos pela minha passagem, por dentro do seu espaço interior de estudo. 

Cada passo dói mais alto do que é.

Leio o livro do Vergílio Ferreira. E penso em como ele nunca seria capaz de vencer qualquer prémio internacional de prestígio. Talvez nem faça sentido ser lido fora dos países de língua portuguesa. O Vergílio só é total dentro dela. As línguas exigem traduções destotalizantes. A obra de Vergílio vive da sua inteireza, daquela que existe desde lá e ainda lá no cárcere puro da criação. E ainda bem.