24 de fevereiro de 2023

Crítica a um filme indizível, assistido no Cinema Trindade

Ontem, no Cinema Trindade, assisti, como nunca antes, a duas lentas horas de purga da humanidade. O (também mudo) imperativo poético do cineasta logrou calar todas as vozes, todas as faces, numa lenta, muito lenta, asfixia do outro. Dir-se-ia sadismo não fora pelo seu notório desinteresse — a câmara é neste filme um olho a tal ponto desapegado que só nos mostra o que lhe mostra a sua cegueira — em que as personagens (não vistas) são corpos que existem, suponho, por uma obrigação de género. Mas uma personagem não é um instrumento. Uma personagem é o desconhecido a conhecer-se, alguém que vive, que sobrevive, apesar de tudo, à sua latente morte. Tais existências exigem cuidado e estima. Neste filme, o cineasta oferece-lhes logo um fim, muito distante da misericórdia porque nem dor sentimos na decapitação.

4 de fevereiro de 2023

Prefácio a projecto de edição do blog Amantes do Desvario

O sonho é um modo esquivo de estar. Diz Sophie: Meus Senhores, venham ao meu sonho, conhecer-me! A sinceridade do apelo resiste à impossibilidade da comunhão. Sophie dá corpo ao encontro, mas não espera que a sigam pelo bravio onde jazem as suas palavras. Quereria? É o próprio formato – o blog – o veículo da fuga: a água corre anónima sob a amplitude do mar, aberto e livre. Para aqui vem Sophie galgando paredes, os olhares, as horas, e onde a poesia pode ser o impulso do que lhe é mais íntimo: a dúvida flagrante. Da dúvida inquire personagens sem nome e sem resposta, ainda que as defina o concreto ou até o espelho, e nelas verte pensamentos tão claros como escuros, tão lúcidos como sulcados, tão seguros como erráticos. Mas Sophie deseja esta liberdade, esta solidão.

Como se divisam fugas também se saram esperanças, e é no meio destes dois esforços onde Sophie descobre a linguagem do seu futuro. Porque o futuro ela traz no porão da imaginação e vive-o mesmo antes do naufrágio. Talvez Sophie nos ensine a humildade necessária ao crescimento. Talvez nos mostre como comungar da saudade e do fado, no uno de nós. Talvez nos indique que sentido dar à morte.

Mas o que talvez melhor nos ensina, precisamente por ser incomunicável, é o seu silêncio. Porque tem em si a bondade para fora e a tristeza para dentro. Sophie pede sem exigir, inquire sem fender, afirma sem proclamar. Que do dever brota a devoção, da mágoa a música, da condição a resistência. É o poeta-mulher, ou a poeta-não-homem, a quebrar o sentido fictício e faccioso da silente entropia do real. E sê meu sonho mais verdade, grita Sophie, a um transeunte, a um amante ou a si mesma, tão caladamente como o bater das asas do mundo. A sua abnegação é ser o fim, por quem ama, pela humanidade.

A esse limiar chegou Sophie muito cedo, num domingo de 2014: Caminho trilhado à margem, Corpo que desatento, Se deixou vazio por dentro, Sem memória da viagem... e aí permaneceu em silêncio desde então. Que abismo ou que céu terá ficado a contemplar? A que completude pode aspirar a mais sábia das liberdades? Não sabemos. Nunca soubemos. A poesia de Sophie era-nos água por entre os dedos, e nunca suspeitámos da torrente que nos havia encharcado as mãos.

A nós apenas resta a humildade, que antecede o conhecimento. Permissora da redenção. Esclarecedora do espaço que nos separa do eterno.

Mas perante o inalcançável, não é vão estendermos a mão. Porque poderá sempre haver quem veja e repita o gesto e se maravilhe, como nós, com aquela imensa distância. Com estas mãos fazem-se casas, fazem-se livros, alguma justiça. Com estas mãos constrói-se no mundo o mais nobre dos invisíveis. E é assim que se coligem estes fulgurantes desvarios de Sophie, não para que percam a liberdade conquistada, mas para que, no possível desta terra, encontrem enfim uma casa.

23 de novembro de 2022

Excerto de «Pássaros do Paraíso II», in Tautologias:

Grande parte do público volta e meia vaiava, assobiava, aclamava desesperadamente para inspiração do seu macho favorito. Dava-lhes nomes, dava-lhes à luz a alma provisória que não detinham no seu corpo passeriforme. Outra parte do público, no qual eu me incluía, tentava alguma expressão de neutralidade, a não querer que a sua preferência pessoal desestabilizasse os intervenientes nem contribuísse para um resultado injusto. Além disso, de certa forma, a má prestação de um ou outro pássaro e o seu eventual, mas pouco convincente, fingimento de si, causava em nós um leve, às vezes apertado, efeito de vergonha alheia que nos remetia ou a um silêncio, ou a um não olhar, ou a um intermitente alienamento da nossa própria presença, como se através de nós os pássaros se pudessem esconder de toda a gente.

24 de fevereiro de 2022

 Não sei pensar, falta-me inteligência, cultura, empatia, respeito, solidariedade. Falta-me pensamento.  

13 de julho de 2021

 Há autores com quem consigo manter uma relação saudável de escritor-leitor, tu cá tu lá. Não lhes ambiciono a escrita. Poderão inspirar-me e profundamente, sim, e algumas ideias e frases são como um belíssimo soco nos meus ciúmes literários. Mas não me aterrorizam. Há outros, porém, que persigo desalmadamente como uma sombra aspirando ao síncrono movimento de nós. Esses queria pensar escrever na cabeça deles (a tal "escrita-leitura" em que tão rendido estou, tão apaixonado, tão alucinado, que a minha leitura parece a escrita do meu impossível).

7 de julho de 2021

Desço à página branca. O meu sono é amplo e vazio, não sou nada contra a expressão da noite. Sou o seu puro silêncio em torno das coisas acabadas. Não quero escrever mas preciso de redenção, de me calar definitivo, e sabê-lo, sem que alguma coisa espreite das florestas marginais da minha atenção.

11 de maio de 2021

Estamos cada vez mais americanizados, uma expansão transatlântica do sonho e do dólar e da língua, exportados mas desimportados. 

raios parta o espelho / espelho o parta raios

14 de abril de 2021

Ler para limpar, neutralizar, o palato. Desabituar-nos a nós, à nossa intimidade, à nossa relação com o espaço e o tempo, com os ritmos desajeitados a que nos tornámos surdos. Há gralhas, mais que formais ou materiais, que são orgânicas e é preciso ler outros autores para não os deixar deixar morrer na sombra da nossa maior insensibilidade.

30 de março de 2021

Acordei novamente espancado pelas obras da casa do lado. Venho do sono dorido dos martelos e das vozes fundas e inchadas dos homens. Vou tentando novos sonos na paz que encontro entre as pulsões brutais. Vou e venho. Vou e venho. O meu peito bate a contratempo.

12.30h. estou desfeito num cansaço atroz. Pensar é sucederem-se imagens arrastadas — como se faltassem frames à fluidez do real.

A S. chegará em breve para almoçar. Antecipo-a nas palavras: quero-lhe falar no livro do Foucault e no Caminho de Santiago (nas bucólicas tentações que passaram ontem na televisão). Estas são duas pedras que calco com a cabeça — tirá-las-ei do chapéu como quem as tira do sapato.

10 de novembro de 2020

Sinto que a minha escrita atravessa uma fase de mutação, bastante abrupta e contrastante. Tal pode dever-se às novas influências que me entraram, pode dever-se à maturação/imaturação, etc. Sinto-me por isso disperso, irresoluto, aberto e frágil, inseguro.

Há duas abordagens que se reconduzem a duas dúvidas semelhantes: primeiro, posso deixar-me influenciar por novas e díspares correntes estéticas, o que conduz à dúvida da minha adequação; segundo, posso parar, não ler, ler-me apenas, virar-me para mim e ecoar-me no encalço de um místico progresso, mas essa construção de um mundo fechado, e por isso não relativizado, reconduz à dúvida de quem se pensa sofisticar com o seu próprio eco. É sempre a necessidade de pensar holisticamente na estética, permanecendo na fronteira tensa entre o olhar em volta e o olhar para dentro.

2 de novembro de 2020

As obras da casa ao lado amainaram. Da sua fúria restam cacos e pó. Sei ser mais uma trégua passageira, mas em cada uma sinto uma paz infinita (— mas dessa infinitude comunga também o reverso, porque estas obras, estando ainda neste ponto depois de mais de meio ano, certamente durarão para sempre.)

1 de novembro de 2020

Hoje é dia de Todos os Santos. Bastante inclusivo.

Lá fora, pela imagem das janelas, fremem as cores outonais no possível das copas.

Dei com uns morcegos pendurados em algumas portas, montras. Há um estranho e melancólico conforto nas coisas desta época. Na sua inocência.

25 de março de 2020

 


10 de março de 2020


 

4 de abril de 2019

Os Animais e o Dinheiro, de Gonçalo M. Tavares e Os Espacialistas. O espetáculo aconteceu no Rivoli, um edifício que me suscita a ideia de uma monumentalidade em ponto pequeno. Os mármores, as luzes, a polidez, a amplitude dos espaços ainda de quando havia espaço para o espaço por dentro da cidade. Mas o espetáculo. O espetáculo era de um efeito iminentemente físico, corporal, como se fossemos tragados pelas iterações circulares e hipnóticas da máquina. Uma hora de constância, de não movimento num ininterrupto movimentar. O pensamento dá-se à indolência do corpo e tudo o que somos e tudo que o espetáculo é e tudo o que está a ser, fica simbioticamente unificado mitigado expandido à simplicidade de uma coisa maior. Uma hora. Uma hora. Uma hora. Num súbito, explode música devasta o funcionamento da engrenagem, a máquina para como se acordada para uma nova realidade nova consciência do espaço do tempo. E há luz, cor, muito tempo de luz, cor, música, e o corpo novamente se dá ao ritmo e à circularidade, mas, desta vez, em êxtase da adrenalina do orgasmo imprevisto. Há muito a intelectualizar. Mas o que o espetáculo dá de incomum é uma consciência profunda de estar ali num corpo por baixo da inteligência, só em contacto terreno com o que há de físico em nós. Mas talvez seja isso uma forma de intelectualizar a questão.  

15 de março de 2019

Ali perto, no fim da Rua das Virtudes, do lado direito, há um chafariz. Ao lado da estrutura está plantada a sua mneumobiografria: um parágrafo em português, outro em inglês. Uma chapa vermelhíssima, mesmo ao centro da cinzenta construção, acautela: água não potável, apenas em português. Desconcertado, pensei se supomos serem os estrangeiros espertos demais para beberem daquela água ou se a prevenção da sua intoxicação extravasa as competências camarárias.

1 de março de 2019

O carnaval aproxima-se da sua febre. As lojas distribuem fogo e cores.

As máscaras carnavalescas requerem pouco cálculo interpretativo. São uma ideia acabada, o seu sentido é espontâneo. Na sua imagem morre a psicologia.

15 de janeiro de 2019

Não quero deambular pela amplitude funesta do que digo ou não digo, o que escrevo ou não escrevo, o que sou ou não sou. Tenho na ideia um texto mais para o narrativo — tenho pensadas as personagens, o espaço da ação, o Tema mais ou menos delineado. Vai dar uma trabalheira. Uma coisa angustiante esta de manipular a psicologia de alguém. Dizem-me naturalmente, e sensatamente: mas as personagens não existem, são um produto de uma puríssima invenção, uma matéria que vem de parte nenhuma. Eu devia ser mais sensato.

8 de novembro de 2018

Anteontem fui a um concerto de música de câmara na ESMAE. Tocava o Primrose Quartet, dizia o programa. E dizia mais coisas. Diziam quem eram e o que tocavam, de onde vinham, como vinham, por onde andaram, porquê, quanto, quando. Tocariam Mozart, Françaix e Brahms. Estes não mereciam descritivos. Supõe-se que se autojustificam com as suas composições. Quanto aos executantes, supõe-se que não sabem ainda justificar o que fazem com o que fazem e que, portanto, careçam de muita biografia anexada. Não sei quem percorreu uma maior distância para chegar àquele tempo e lugar, se Mozart se os Primrose. Mas naquele momento no espaço ou aquele sítio no tempo, onde o Mozart é e os Primrose são, são uma unidade. É que as notas programadas não estão programadas, mesmo as que estão programadas. Aquelas notas vinham de longe, tão longe quanto a metafísica me permitir pensá-las.

4 de outubro de 2018

Biblioteca de Serralves. É outra biblioteca de chão rangente que obriga à anunciação dos passos. Em que escolas de arquitectos de bibliotecas andaram estes arquitectos de bibliotecas? Ou quantas bibliotecas lhes faltou frequentar? Mas nem tudo é mau. Há uma intensidade campestre que entra por uma janela lá no alto. A sala de leitura, cá em baixo, parece existente debaixo da terra. Gordas lâmpadas forçam as coisas regulares à sua irrealidade irreversível, por contágio da fantasia. A metáfora hiperbolizada da iluminação, talvez.