24 de fevereiro de 2023
Crítica a um filme indizível, assistido no Cinema Trindade
4 de fevereiro de 2023
Prefácio a projecto de edição do blog Amantes do Desvario
23 de novembro de 2022
Grande parte do público volta e meia vaiava, assobiava, aclamava desesperadamente para inspiração do seu macho favorito. Dava-lhes nomes, dava-lhes à luz a alma provisória que não detinham no seu corpo passeriforme. Outra parte do público, no qual eu me incluía, tentava alguma expressão de neutralidade, a não querer que a sua preferência pessoal desestabilizasse os intervenientes nem contribuísse para um resultado injusto. Além disso, de certa forma, a má prestação de um ou outro pássaro e o seu eventual, mas pouco convincente, fingimento de si, causava em nós um leve, às vezes apertado, efeito de vergonha alheia que nos remetia ou a um silêncio, ou a um não olhar, ou a um intermitente alienamento da nossa própria presença, como se através de nós os pássaros se pudessem esconder de toda a gente.
24 de fevereiro de 2022
13 de julho de 2021
Há autores com quem consigo manter uma relação saudável de escritor-leitor, tu cá tu lá. Não lhes ambiciono a escrita. Poderão inspirar-me e profundamente, sim, e algumas ideias e frases são como um belíssimo soco nos meus ciúmes literários. Mas não me aterrorizam. Há outros, porém, que persigo desalmadamente como uma sombra aspirando ao síncrono movimento de nós. Esses queria pensar escrever na cabeça deles (a tal "escrita-leitura" em que tão rendido estou, tão apaixonado, tão alucinado, que a minha leitura parece a escrita do meu impossível).
7 de julho de 2021
11 de maio de 2021
14 de abril de 2021
Ler para limpar, neutralizar, o palato. Desabituar-nos a nós, à nossa intimidade, à nossa relação com o espaço e o tempo, com os ritmos desajeitados a que nos tornámos surdos. Há gralhas, mais que formais ou materiais, que são orgânicas e é preciso ler outros autores para não os deixar deixar morrer na sombra da nossa maior insensibilidade.
30 de março de 2021
10 de novembro de 2020
2 de novembro de 2020
1 de novembro de 2020
10 de março de 2020
4 de abril de 2019
Os Animais e o Dinheiro, de Gonçalo M. Tavares e Os Espacialistas. O espetáculo aconteceu no Rivoli, um edifício que me suscita a ideia de uma monumentalidade em ponto pequeno. Os mármores, as luzes, a polidez, a amplitude dos espaços ainda de quando havia espaço para o espaço por dentro da cidade. Mas o espetáculo. O espetáculo era de um efeito iminentemente físico, corporal, como se fossemos tragados pelas iterações circulares e hipnóticas da máquina. Uma hora de constância, de não movimento num ininterrupto movimentar. O pensamento dá-se à indolência do corpo e tudo o que somos e tudo que o espetáculo é e tudo o que está a ser, fica simbioticamente unificado mitigado expandido à simplicidade de uma coisa maior. Uma hora. Uma hora. Uma hora. Num súbito, explode música devasta o funcionamento da engrenagem, a máquina para como se acordada para uma nova realidade nova consciência do espaço do tempo. E há luz, cor, muito tempo de luz, cor, música, e o corpo novamente se dá ao ritmo e à circularidade, mas, desta vez, em êxtase da adrenalina do orgasmo imprevisto. Há muito a intelectualizar. Mas o que o espetáculo dá de incomum é uma consciência profunda de estar ali num corpo por baixo da inteligência, só em contacto terreno com o que há de físico em nós. Mas talvez seja isso uma forma de intelectualizar a questão.
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